WLSA Moçambique A WLSA registou 74818 visitantes únicos até hoje. Pormenores da pintura "Poema à sofridão da mulher", Malangatana Valente Ngwenya, colaboração do artista
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Livro (em PDF):
Género e sexualidade entre jovens estudantes do ensino secundário, Moçambique
Autoras: Conceição Osório, Tereza Cruz e Silva Mais publicações |
Linguagem e discriminação.As mulheres não são de confiançaMaria José Arthur
Publicado em “Outras Vozes”, nº 2, Fevereiro de 2003
Dificilmente se pode negar hoje em dia que o sexismo se manifesta na linguagem e que, sob a forma aparentemente inofensiva de piadas, ditos jocosos e chistes, ajuda a reproduzir representações que reforçam a carga simbólica negativa associada à mulher e a tudo o que é feminino. No entanto, uma coisa é admitir este facto na teoria, outra coisa é passar à acção e criticar práticas concretas de linguagem, mesmo que se trate de algo tão público como os anúncios comerciais ou a escrita de alguns dos nossos jornalistas, tantas vezes insultuosa para as mulheres. No entanto, se mesmo assim alguém se atrever a dar voz a este sentimento, o mais provável é ser acusada de perfilhar os “exageros” que se atribuem ao movimento feminista internacional, também chamado de “ocidental”, para frisar bem que se trata de algo “exógeno” à nossa realidade. Vem isto a propósito porque outro dia ia na rua e reparei num autocolante que se encontrava colocado numa viatura que passava. Era do género daqueles que às vezes se vê, com mensagens do tipo, “bad boy”, “no fear”, “baby on board”, etc. Só que, neste caso, o que me chamou à atenção é que dizia, “as mulheres não são de confiança”. Fiquei chocada e achei curioso que alguém se desse ao trabalho de comprar um autocolante com semelhante mensagem e, ostensivamente, se passeasse com ele pela cidade. Depois pensei que possivelmente o dono da carrinha, se questionado, iria sorrir e perguntar se não era engraçado. Só que esta “piada” é tudo menos engraçada. Esta piada diz assim, claramente, o que está implícito como axioma, como valor inquestionável, nas relações entre homens e mulheres, independentemente dos meios e das origens: os homens são seguros, leais, de confiança. As mulheres são instáveis, obedecem aos seus próprios interesses, nunca se pode ter certezas sobre elas. Ao considerar que as mulheres não são de confiança, não se estabelecem diferenças, fala-se de todas as mulheres. Isto é, a não fiabilidade vem-lhes do facto de serem mulheres. Por outro lado, por contraste, afirma-se que os homens, esses sim, merecem confiança. Mais uma vez, todos os homens. Trata-se, portanto, de uma afirmação generalizante e que não perde tempo a particulizar caso por caso. Aliás, é isso que fazem os estereótipos: são por natureza redutores, sublinhando a ausência de uma propriedade considerada desejável. Constituem armas de poder1. Estamos, pois, a falar de uma afirmação abertamente insultuosa para todas as mulheres, não pelo que fizeram ou pelas ideias que têm, mas pelo facto de serem mulheres. E aquela carrinha continua a circular por este país, despertando sorrisos quase sempre e, se calhar, muito pouca indignação. Por que tanta tolerância? Porque alguns sistemas de dominação têm mais aceitação do que outros. Experimentem mudar algumas das proposições nessa frase e vejam o que dá: - Exemplo nº 1 – “Os negros não são de confiança”
- Exemplo nº 2 – “Os muçulmanos não são de confiança”
- Exemplo nº 3 – “As pessoas do Norte não são de confiança”
Alguém que ousasse passear-se com estas frases escritas na viatura teria certamente problemas. Tal como a mensagem original, todos estes exemplos têm um carácter discriminatório, mas referem-se a sistemas de discriminação considerados socialmente inaceitáveis: o racismo, o preconceito contra uma crença religiosa, o regionalismo. Ou seja, mensagens como as dos exemplos 1, 2 ou 3, provocariam uma grande indignação porque ninguém aceita sistemas de dominação/discriminação com base na raça, na religião ou na zona de origem. A grande tolerância e aceitação dos sistemas de dominação de género estão patentes não só na maneira como funcionam as várias instituições, mas permitem também excessos de linguagem. Excessos estes que não só reflectem a realidade, mas também a estruturam. Mas, se quisermos ir mais longe, poderíamos ver a afirmação de que as mulheres não são de confiança sob o ponto de vista da relação entre o dominador e o dominado. Ou seja, em qualquer sistema de dominação, aquele que está no pólo dominante olha sempre com desconfiança para os oprimidos, porque é lógico pensar que estes, sempre que puderem, lutarão contra a discriminação de que sofrem. Então, segundo esta perspectiva, essa mensagem pode significar o reconhecimento de que as mulheres são discriminadas e dominadas, e que os homens devem estar vigilantes para conter qualquer manifestação de rebeldia ou de insubmissão. No entanto, qualquer que seja o ângulo pelo qual a questão é examinada, a verdade é só uma: embora legalmente condenada e formalmente reconhecida como inaceitável, a dominação de género persiste e é aceite por uma grande parte da sociedade. Esta realidade reflecte-se nas práticas e na linguagem. Nota: - M. Herzfeld, 1992, La pratique des stéréotypes.- In: L’Homme, 121.- pp. 67-77
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Textos publicados:- Proposta de lei contra a violência doméstica: processo e fundamentos, Ximena Andrade, 2009
- Deixando cair o véu... A violência doméstica contra as mulheres na comunicação social, WLSA Moçambique, 2009
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- Os movimentos sociais e a violência contra a mulher em Moçambique: marcos de um percurso, Ana Maria Loforte, 2009
- Poligamia: tudo em nome da "tradição", Yolanda Sithoe, 2009
- Tráfico de Mulheres & Mundial de Futebol 2010: risco de aumento da exploração sexual ligada ao tráfico, WLSA Moçambique, 2009
- Proposta de lei contra a violência doméstica: ponto de situação, WLSA Moçambique, 2009
- Identidades de género e vida sexual, Conceição Osório e Teresa Cruz e Silva, 2008
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- Instâncias locais de resolução de conflitos e o reforço dos papéis de género. A resolução de casos de violênica doméstica, Maria José Arthur e Margarita Mejia, 2006
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- Sociedade matrilinear em Nampula: estamos a falar do passado? Conceição Osório, 2006
- Impacto psicológico da violência contra as mulheres, Henny Slegh, 2006
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- Não é controlando o vestuário das mulheres que se pode travar o SIDA, Fórum Mulher, 2006
- Violência contra as mulheres e cumplicidades masculinas. Opinião, Maria José Arthur, 2005
- O abuso sexual no contexto da construção da sexualidade feminina, Conceição Osório, 2005
- Comunicados “Pela Eliminação da Violência Doméstica”, Fórum Mulher, WLSA Moçambique, AMMCJ, MULEIDE, 2005
- Da agressão à denúncia: análise de percursos de mulheres, Maria José Arthur e Margarita Mejia, 2005
- As boas meninas e as feministas; opinião, Maria José Arthur, 2005
- O caso das eleições legislativas de 2004, em Moçambique. Uma análise de género, Conceição Osório, 2005
- Violência doméstica: a fala dos agressores, Margarita Mejia e Maria José Arthur, 2005
- Feminização do SIDA em Moçambique, Teresa Cruz e Silva e Ximena Andrade, 2005
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- O significado da viuvez para a mulher, Eulália Temba, 2004
- Mulheres, poder e democracia, Conceição Osório, 2004
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- Algumas reflexões sobre o funcionamento dos Gabinetes de Atendimento da Mulher e da Criança, 2000-2003 (1ª e 2ª parte), Conceição Osório, 2004
- Essas gravidezes que embaraçam as escolas. Violação dos direitos humanos das jovens adolescentes, Maria José Arthur e Zaida Cabral, 2004
- O aborto inseguro em Maputo, Fernanda Machungo, 2004
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- Mulheres Excedentárias. Recortes de imprensa, Maria José Arthur, 2004
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- Sobre a proposta de Lei de Família, Irene Afonso, 2002
- A situação legal das mulheres em Moçambique e as reformas actualmente em curso, Conceição Osório e Maria José Arthur, 2002
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